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Cuidado, não se acostume com o que te fere
Muitas vezes, a dor não chega com um estrondo; ela chega de mansinho, pedindo licença para se sentar à mesa e, quando percebe, já a tratamos como se fosse da família. O verdadeiro perigo reside na anestesia da alma diante do que deveria ser intolerável. É um processo silencioso, onde o calor sutil seduz antes de consumir.
Recentemente, ouvimos o desabafo de quem, por trás das luzes da fama, revelou como se acostumou com um ciclo de controle e agressividade que feriam sua alma diariamente. Ela confessou o que muitos de nós vivemos em silêncio: a crença de que aquele peso no peito era apenas "o jeito das coisas" ou que éramos nós os culpados pela ferida aberta. O insuportável nunca deve ser o nosso normal.
Mas esse "fogo baixo" não vem apenas de fora. Ele se esconde no comentário ácido, no desrespeito silencioso ou na indiferença. Sabe aquela história do sapo? Se colocado em água fervendo, pula fora na hora. Mas, se for colocado em água fria e o fogo for ligado bem baixinho, ele vai se acostumando com o calor até que, quando percebe o perigo, já não tem mais forças para reagir.
É assustador perceber como isso acontece conosco. O mal muitas vezes é silencioso e gradual. Começa com uma palavra áspera que a gente releva, um desrespeito que a gente finge que não viu. O perigo não está apenas na temperatura da água, mas no fato de pararmos de senti-la.
Eu sei que você pode pensar: "E quando o mal é algo de que não posso fugir?". Nem sempre o livramento é a fuga imediata, mas é, acima de tudo, não deixar que o calor mude a sua essência. O que torna esse fogo baixo tão cruel é que ele não quebra a gente de uma vez; ele vai nos desconstruindo pedaço por pedaço, até que a gente não reconheça mais a própria força.
Isso exige vigilância da mente. Mesmo que o corpo esteja na água quente por uma circunstância da vida, a alma precisa estar em outro lugar. Jesus nos pede para sermos vigilantes e sóbrios, mantendo a sensibilidade aguçada para não chamar o amargo de doce, nem a opressão de normalidade.
A maior ferida não foi o que fizeram com você, mas o que você deixou de ser para conseguir sobreviver ali dentro. Precisamos de uma mudança de postura. Às vezes não podemos sair da panela agora, mas podemos desligar o fogo ou jogar água fria: estabeleça limites emocionais e buscar ajuda espiritual.
Que o Senhor mantenha nossos sentidos atentos e nossa alma desperta. Que Ele nos dê a graça de habitar no mundo, sem deixar que o "calor" do mundo habite em nós e apague a nossa luz.
"Não confunda a temperatura da água com o seu valor pessoal."
veja também: Reconstruir também é coragem
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